quarta-feira, 22 de junho de 2022

Eu quero que meu filho seja como eu!

Como professora eu já acompanhei diversos casos onde a expectativa do pai com relação ao filho gritava tão alto que era impossível que ele conseguisse  ouvir os gritos do seu próprio filho.

Um dia eu assumi uma aula vaga de uma turma do 6º ano e resolvi fazer uma dinâmica para descontrair, eles estavam agitados, era semana de prova então decidi propor um exercício para que pudessem relaxar, durante o exercício pedi que eles deitassem a cabeça sobre a carteira e silenciassem por um minuto, alguns segundos depois dei a eles a liberdade de liberar suas emoções, caso quisessem falar algo que os estivesse incomodando bastava levantar a mão que eu iria até eles ouvir, depois disso pegávamos um ursinho e olhando para ele expressávamos alguma palavra de carinho e reconhecimento que gostaríamos de ouvir. 

Eles estavam tímidos mas não demorou muito para que o primeiro aluno levantasse a mão, ainda de cabeça baixa e aos prantos ele disse baixinho: "Eu tô desesperado, preciso tirar uma boa nota se não meu pai não vai me perdoar", eu disse a ele que não deveria pensar assim, seu pai o amava e não deixaria de amar caso ele não conseguisse a nota máxima, mas ele continuou " Prô você não entende, meu pai sempre me cobra muito preciso ser como ele...".

Este aluno não foi o único de levantou a mão...

Naquele dia eu sai arrasada da escola, era muita dor emocional para uma criança de 12 anos.

Além de professora sou mãe e todos os dias me questiono se tenho ouvido suficientemente meu filho, sim porque crianças estão a todo o momento fazendo descobertas e entendendo como podem lidar com elas e diferente do que muita gente pensa ela ao longo de seu desenvolvimento vai trabalhando seu próprio ego, explorando suas vontades e cabe a nós como pais norteá-los neste processo.
Naquele dia na escola o que eu vi foi o retrato de como uma criança lida com as expectativas de um adulto idealizador.
Não estou dizendo aqui que é errado desejar que o filho seja bem sucedido, longe disso, mas a que preço?
É bem comum ver pais fazendo brincadeiras com relação a semelhança de seus filhos consigo mesmos o problema é que na maioria das vezes não estão nunca satisfeitos com essa semelhança esquecendo que de fato nossos filhos são nosso espelho refletindo nosso comportamento seja ele bom ou mau.

Durante a infância as crianças sentem  necessidade de aprovação principalmente por parte dos pais, para elas a aprovação é sinônimo de amor, quando nós como adultos despejamos sobre nossos pequenos as frustrações que tivemos em forma de idealização sobre o que ele deve ser estamos anulando aquilo que a criança é buscando nossa própria realização muito provavelmente pautada em algo que não fomos capazes de  alcançar.

Seu filho não é você
 

Reconhecer que estamos tentando transformar a vida de nossos filhos em nossa vida é o primeiro passo, segundo passo é compreender que os tempos são outros o que torna inviável criar nossos filhos como fomos criados e terceiro passo é preciso dedicar tempo a ouvir, compreender e conhecer nossos pequenos.


  • A criança está em busca de construir-se a si mesma 
O desenvolvimento infantil durante muito tempo foi pensado erroneamente, acreditava-se que a criança nascia vazia e precisava ser cheia de conhecimentos e moldada conforme cultura, com o passar do tempo a medida que passamos a desenvolver a autonomia da criança percebemos que não era bem assim, e claramente em um determinado ponto de seu desenvolvimento ela vai manifestando suas aptidões, seus gostos, suas preferências, dessa forma é preciso compreender que assim como nós somos seres únicos nossos filhos também são, não é porque decidimos ser de determinada profissão, ter determinado gosto musical que eles obrigatoriamente seguirão nossos passos e o pior não é por que idealizamos seu futuro que ele estará feliz e pleno em seguir.
Muitas vezes seguir essas idealizações pode causar ansiedade, a sensação de que nunca são bons o suficiente, entre outras problemas ainda mais graves, abusar do poder que exercemos sobre nossos filhos neste contexto pode comprometer drasticamente sua vida adulta.
  • Como meu filho lida com a minha expectativa?
Como comentei brevemente no tópico anterior nossos filhos vão inconscientemente buscar sempre a nossa aprovação mesmo que isso lhe cause dor, e não isso não é frescura é dor emocional.
Muitos pais se aproveitam desse contexto e chantageiam seus filhos para conseguir bons resultados, claro dentro de sua perspectiva totalmente equivocada, o que deixa claro que não é sobre seu filho é sobre si mesmo.
Como professora eu vi não uma, não duas, mas inúmeras vezes crianças em desespero tendo crises de ansiedade por conta destas expectativas e o que mais deixava perplexa era ver que a escola ao  invés de amparar estas crianças ainda alimentavam o desejo narcísico de seus pais.
Cansei de ver crianças desesperadas chorando no palco dos "eventos" para que os pais pudessem tirar fotos para exibir nas redes sociais, o bem estar da criança nunca foi importante ali.
Inclusive ao falar sobre isso me lembrei de uma formação para terapeutas  da qual participei onde uma moça de uns 35 anos ao entrar em processo hipnótico começou a chorar desesperadamente ao recordar que durante uma apresentação da escola ela foi mal tratada por sua professora que a chamou de gorda e a colocou pra dançar no fundo para que não ficasse muito a mostra contrariando a mãe narcisista, essa lembrança repercutiu de maneira tão negativa e intensa que até o momento daquela sessão aos 35 anos ela sofria de baixa estima por conta do trauma, conseguem perceber isso.

  • Como eu lido com minha frustração?

Não existe um manual que ensine a ser pais, mesmo que existam muitos conteúdos a respeito dando inúmeras dicas elas não se aplicam a todo contexto afinal somos únicos.

Mas diria que é quase unanime entre terapeutas e psicólogos que ao tratar uma criança o foco da terapia seja sempre os pais inicialmente, e isso tem uma explicação, como disse anteriormente as crianças são espelhos de seus pais, logo se estão manifestando algum comportamento fora do "padrão" pode ser a manifestação de algum comportamento do adulto, reverberando na criança, afinal elas são educadas essencialmente pelo exemplo não pelo que é dito a ela fora de um contexto aplicável.

Dessa forma é muito interessante observar quando nós passamos dos limites nas idealizações sobre nossas crianças, de repente em algum momento pode ser que tenhamos nos sentido frustrados em nossa infância e desejamos transferir isto aos nossos filhos.

Sabe aquele curso de balé que sua filha odeia? Será que não é você quem gostaria de fazê-lo? 

Precisamos aprender a separar o que é nosso do que é dos nossos filhos e acima de tudo buscar auxilia-los a descobrir suas próprias perspectivas, seus próprios sonhos, seus próprios gostos respeitando sua individualidade.

E claro também é preciso olhar pra dentro para que venhamos ser seres plenos sem criar a expectativa de que seus sonhos se realizem no outro, seus sonhos são seus e merecem atenção também, mas o outro terá seus próprios sonhos e isso precisa ser respeitado.

Eu tenho certeza que se fizermos um bom trabalho com  nossos filhos eles nos olharão como espelho por vontade própria e de maneira saudável, sem precisar se destruir pra assumir nossa casca.

"Quanto pior tratamos uma criança, pior ela pensa que é.

Ela não consegue deixar de amar seus pais, ela deixa de amar a si mesma" - Bert Hellinger




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